Sexta, Julho 30, 2010
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A pedra salvadora do rei Davi

davgolA tradição judaica-cristã registra o episódio envolvendo o jovem Davi, que posteriormente veio a ser o segundo rei do povo hebreu, e um oponente filisteu, tido como gigante, chamado Golias.

Davi, um tocador de harpa, conquistou a confiança do rei Saul tornando-se seu escudeiro. Nessa condição, inconformado com as ameaças dos filisteus, Davi se dispõe a enfrentar o guerreiro Golias. Saul oferece sua armadura, porém Davi recusa por não ser treinado nas lutas valendo-se desse acessório. Usando apenas uma funda o jovem arremessa uma pedra que devasta Golias. Inconsciente, Golias é incapaz de defender-se do golpe que Davi desfecha com sua própria espada, decepando-lhe a cabeça.

É interessante destacar dois pontos desse sintético relato. Primeiro que um gigante, ou de modo mais realista um homem forte foi arrasado surpreendentemente por um rapaz muito mais fraco, porém certamente visceralmente comprometido com os ideais de seu povo. Segundo que Davi reconheceu sua própria fragilidade, abdicando da armadura em razão de sua inabilidade em utilizá-la. Davi sabiamente optou pela arma que conhecia bem. Traçou um plano e usou os recursos com inteligência e maestria. Tivesse ele se vestido com o aparado esperado, Golias o teria massacrado e a história seria contada de modo totalmente diverso.

Vive-se hoje em um ambiente muito competitivo. Os mercados são disputados intensamente. Produtos e serviços são cada vez menos distintos. Com isso o lucro, mola propulsora das economias capitalistas, depende crucialmente da importância relativa das empresas nos diversos mercados. O que leva por decorrência a ampliação dos movimentos de fusões e incorporações, incluindo, é claro, a intensificação das ações de internacionalização em todos os mercados.

Mais recentemente a crise financeira internacional aumentou a agressividade das grandes corporações. Embora as condições da economia brasileira sejam substancialmente mais favoráveis que em outras circunstâncias, é inegável que a economia mundial desacelerou seu ritmo expansionista. Se há menos para todos é natural que a disputa se torne mais intensa.

As pequenas e médias empresas nesse cenário sofrem mais. As ameaças tornam-se mais concretas e mais imediatas. No Brasil a situação é ainda mais séria. A gestão é um ônus muito mais pesado para esse tipo de empresas. Se assim não fosse os indicadores que apontam a informalidade não seriam tão elevados no País.

Desse modo, os pequenos negócios de um lado pressionados pelas grandes organizações e de outro sufocados por um Estado cada vez mais ávido de recursos tributários, sentem-se como Davi e seu povo abafados pela fúria incessante dos soldados filisteus.

A resposta não pode ser a armadura do rei Saul. A armadura é o recurso dos gigantes. Enfrentá-los ou apenas se cobrir com esse aparato para se proteger do ataque impiedoso é evidentemente insensato. É preciso procurar pela funda que salvou a vida de Davi.

Os pequenos são naturalmente mais rápidos, mais ágeis e mais flexíveis. Se o pequeno é pequeno, e se assim continuar, suas possibilidades repousam exatamente nessas importantes características. O posicionamento deve ser diferente, entretanto, para que isso ocorra é preciso pensar diferente. Verdadeiramente o que deu a Davi a condição de vencer o gigante Golias foi a criatividade e a firme recusa aos padrões estabelecidos.

Claudio Felisoni de Ângelo é
presidente do Conselho do Provar - FIA
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